Quinta-Feira, 14 de maio de 2026

ESPECIAL: LINHARES, SUAS CONQUISTAS E PERDAS

Publicado em 24/04/2023. https://jornalterral.com.br/t-xZd

Arquivo TERRAL

O TERRAL inicia hoje uma série de matérias sobre a história de Linhares

Por Daniel Porto

O TERRAL inicia hoje uma série de matérias sobre a história de Linhares, suas conquistas e perdas. O objetivo é provocar o leitor e levá-lo a refletir. O mesmo texto pode ser considerado vitória ou derrota, dependendo do ponto de vista de cada um. Há espaço para concordar ou discordar do que está sendo publicado.

A primeira abordagem é sobre áreas e equipamentos públicos. Maior do Espírito Santo em extensão territorial, o município teve regiões desmembradas que proporcionaram o surgimento de Rio Bananal, Sooretama e Vila Valério – este, fruto de localidades situadas em Linhares e São Gabriel da Palha.

Porém, o foco não é sobre isso, e sim sobre áreas que pertenciam à municipalidade e tiveram outras finalidades, assim como equipamentos públicos que eram do município e hoje não são mais. Nesses casos, de uma forma ou de outra, a população deixa de contar com serviços e espaços públicos.

Seguem matérias sobre a área do bairro Conceição que foi desapropriada pela prefeitura em 1954 e voltou para o antigo dono em 1969; a escola Afrânio Peixoto, que consumiu muitos recursos e hoje não existe mais; resgatamos a história da maternidade municipal, hoje Fundação Beneficente Rio Doce; e registramos que áreas para o parque de exposição, aeroporto e rodoviária foram adquiridas na década de 1960.

Boa leitura!

 

Área do bairro Conceição foi desapropriada pela prefeitura e voltou para o antigo dono

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Os lotes do bairro Conceição começaram a ser vendidos em 1969

 

O livro Guia Histórico Geográfico das Ruas de Linhares (iniciativa da Serlihges), lançado pela Editora Porto em 1995 registra que em 1954 a prefeitura desapropriou uma área da Fazenda Três Barras, hoje bairro Nossa Senhora da Conceição, para construir um campo de aviação. A fazenda pertencia a Genésio Durão.

A decisão teve como objetivo facilitar o pouso do avião do presidente Getúlio Vargas, que esteve em Linhares em 22 de junho de 1954 para inaugurar a ponte sobre o rio Doce. Alegando não ter recebido o valor acordado, Genésio Durão entrou na Justiça e 15 anos depois teve o seu terreno de volta, vendendo-o em seguida para o irmão Álvaro Garcia Durão.

Álvaro então se juntou ao filho Adilson Garcia Durão e ao senhor Pedro Gonçalves Pereira, abriu a firma Gonçalves Durão & Cia. Ltda. e loteou o terreno. Também consta no livro que o sócio Adilson, responsável pela venda dos lotes, atendendo a sugestão de sua mãe, dona Castorina Garcia Durão, deu ao novo bairro o nome de Nossa Senhora da Conceição, em 1969.

O prefeito no período 1951 - 1954 era Joaquim Calmon. Em resumo: o hoje bairro Conceição foi desapropriado pela prefeitura de Linhares em 1954 e acabou devolvido em 1969, após perdê-lo na justiça.

 

Prefeitura investiu muito na escola Afrânio Peixoto, que não existe mais

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A escola Afrânio Peixoto marcou época em Linhares

Quem mora em Linhares há muitos anos com certeza viu ou ouviu falar na escola Afrânio Peixoto, situada no centro da cidade. O colégio existiu durante décadas, recebeu muitos incentivos dos governos municipal e estadual e não existe mais. No livro Panorama Histórico de Linhares, lançado em 1982 pela professora Maria Lúcia Grossi Zunti, há vários registros sobre a escola.

No governo do prefeito Emir de Macedo Gomes (1955 - 1958), o vereador Francisco Aristides de Albuquerque propôs a aquisição de um terreno para a construção de sua sede. O próprio Emir continuou apoiando a escola, como deputado estadual e secretário estadual de Educação, servindo de intermediário na execução da construção do segundo andar.

Outros prefeitos também contribuíram com o colégio – casos de Armando Barbosa Quitiba (1959-1962) e Antenor Elias (1963 - 1966). O primeiro liberando auxílio e Elias como responsável pelo projeto visando à construção do primeiro andar da sede. Apesar do apoio da prefeitura e do governo estadual, a escola encerrou as atividades em Linhares.

 

Maternidade municipal inaugurada em 1966 virou Fundação Rio Doce três anos depois

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A mudança para Fundação Beneficente Rio Doce ocorreu em 26 de julho de 1969

Muitos não sabem que a hoje Fundação Beneficente Rio Doce, mantenedora do Hospital Rio Doce, teve início como uma maternidade que pertencia ao município. Inaugurada em 1966 pelo prefeito Antenor Elias (1963 - 1966), a maternidade recebeu o nome de Carmosina Morais Elias em homenagem à esposa do então prefeito.

A mudança para Fundação Beneficente Rio Doce ocorreu em 26 de julho de 1969, numa iniciativa do prefeito Senatilho Perin (1967 - 1970). O primeiro provedor foi Alfeo Marchi Grillo, tendo como diretor clínico o médico José Antonio Palmeira da Silva. O fato é que o que pertencia ao município se tornou fundação e passou a ser administrada por pessoas da sociedade.

O Rio Doce oferece diversos serviços e atendimentos e recebe recursos dos governos federal, estadual e municipal, além de outras fontes. No ano passado o governo do ES assinou um acordo que prevê o repasse R$ 85 milhões por ano. Em recente reunião o governador Renato Casagrande fez uma abordagem sobre o acordo em tela e sinalizou para nova discussão.

A fundação se consolidou em 22 de junho de 1970, por meio da lei nº 529, que garantiu a doação, por parte do município, do prédio da maternidade, equipamentos e mobiliário. Na época, a internação de pacientes era assistida por três médicos: José Antonio Palmeira da Silva, Deodoro Dantas Alves e Joel Coelho Ferreira.

Os médicos contavam com a colaboração de auxiliares de enfermagem, do pessoal de apoio e de freiras lideradas pela irmã Santa Costalunga. Os pacientes eram atendidos nas categorias INPS, Funrural, particular e indigente. Em 1971, com 70 leitos e novos profissionais foi possível formar uma escala de plantão.

Em seguida ingressaram os médicos Roberto Poltronieri Alvarenga, José Anselmo Pimenta Lofego, Jair Perini, Otávio Abreu Xavier e logo após Edilson Souza Rocha e José Carlos Vacari. Em 1977, com o médico José Anselmo Lofego como provedor, o estatuto foi revisto e o nome passou de Hospital Municipal de Linhares para Hospital Rio Doce, sendo incorporados mais médicos no corpo clínico.

A estrutura do hospital foi ampliada, recebendo maternidade, centro cirúrgico, lavanderia e pronto socorro. A UTI Adulto foi criada em 1981, já com o médico Edilson Souza Rocha como provedor. Em 1985, na gestão do provedor Senatilho Perin, ingressaram 20 membros da sociedade de Linhares, fazendo um aporte financeiro, conforme estabelecia o estatuto.

Essa atitude permitiu que o quadro societário fosse oxigenado e que a instituição passasse a ter empresários como provedores. Nessa época foi instituído o cargo de diretor administrativo, sendo nomeada a administradora hospitalar Maria de Fátima Fiorino Biancardi. Em razão da medida, o diretor clínico deixou de exercer dupla função, conforme ocorria até então.

As provedorias mudam a cada dois anos, sendo algumas renovadas, caso, por exemplo, do gestor Arles Guerra Miranda.

 

Áreas para parque de exposições, aeroporto e rodoviária foram adquiridas na gestão de Senatilho Perin

Arquivo TERRAL

O parque de exposições de Linhares foi adquirido pelo prefeito Senatilho e pertence ao Sindicato Rural Patronal

Durante a sua gestão, de 1967 a 1970, o prefeito Senatilho Perin adquiriu áreas para o parque de exposição de Linhares, aeroporto e rodoviária. O terreno para o aeroporto fica à margem da BR 101, antes do bairro Canivete, e chegou a receber serviços de terraplenagem para tal fim. Fica perto do local em que se encontra de fato o aeroporto do município.

 Em julho de 1969, o prefeito Senatilho adquiriu áreas atrás do bairro Novo Horizonte para a construção do parque de exposição agropecuária e para a instalação de uma estação rodoviária. O parque pertence atualmente ao Sindicato Rural Patronal e em 2005 o então prefeito José Carlos Elias tentou negociar com a entidade para que no lugar fosse construído um estádio municipal. As conversas não avançaram.

Em relação ao terreno para a construção da rodoviária, o prefeito Samuel Batista Cruz (1973 - 1976) chegou a colocar uma placa com os dizeres “futuras instalações”. Porém, durante o mandato doou a área para que o Banestes construísse a sede de sua associação. Há pouco tempo os associados do Banco negociaram a área com alguns empresários.

As péssimas condições dos rios e lagoas de Linhares

Os rios e lagoas de Linhares apresentam péssimas condições, construções irregulares, lixo e dejetos

Linhares conta com rios e mais de 60 lagoas. No entanto, o que deveria orgulhar os seus moradores causa indignação e vergonha, em razão do descaso e poluição. Os rios, com destaque para o Doce e o Juparanã (Pequeno), apresentam péssimas condições, construções irregulares, lixo e dejetos. O mesmo ocorre com as lagoas, em especial as da sede do município: a do Meio e a do Aviso,

O problema é antigo. No livro Vultos, Fatos & Lendas Linharenses, lançado em 1975, o advogado e escritor Lastênio Calmon Júnior (1909 - 1988) já denunciava a situação. Ao falar sobre o traçado de Linhares, destacou que a beleza do município só podia ser contemplada do fundo dos quintais daqueles que tiveram o privilégio de obter lotes à beira do rio.

Além de criticar o que estava acontecendo no Centro de Linhares, Lastênio Calmon escreveu que na lagoa do Aviso ocorria fenômeno semelhante. “Lotearam os terrenos ali existentes até a margem da lagoa sem que se deixasse uma faixa beirando a água para a futura avenida do Contorno, e o resultado lá está: os quintais vão com suas cercas até a água”.

Ele acrescentou: “Uma feiura grotesca a atestar incapacidade por todos os tempos até que venha um administrador que tire a nossa cidade dessa situação, traçando um grande plano urbanístico, onde se vejam por todos os recantos, praças e avenidas ajardinadas, bosques e ruas de bom gosto”. E concluiu: “Espere, meu Linhares, esse Príncipe Encantado, que um dia há de vir!”.

A morte das lagoas e rios de Linhares também preocupavam a professora, escritora e historiadora Maria Lúcia Grossi Zunti (1941 - 2022). Em texto de sua autoria, publicado pelo TERRAL em março de 2021, ela citou riquezas naturais do município e ressaltou que a Mata Atlântica se foi; o rio Doce está morto e as nossas lagoas estão todas se acabando de tão poluídas.

Maria Lúcia questionava: “Para que temos a Justiça? Para que temos o Iema? Para que temos governadores e prefeitos? Para que temos secretarias de Meio Ambiente? Ibama?”. E completava: “Então, choro aqui como um grito, um grito retumbante, com toda a minha alma e espírito de inenarrável, imensurável inconformidade!”.

 

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