Quem conhece um pouco a história de Linhares certamente já ouviu falar em João da Santa, um dos personagens mais conhecidos da cultura popular do município. Ele era devoto de Nossa Senhora Aparecida e carregava sempre uma santinha. Quando estava muito seco, saía para pedir chuva; se o período era de chuva, pedia para fazer sol. Coincidência ou não, muitas vezes acontecia o que ele pedia.
No livro Luiz Durão: uma história de sucesso! (Porto, Daniel. D. Porto Editora. 2018), o biografado conta que tudo começou com o tio, Durval Garcia Duarte, que “negociou” o índio botocudo por 50 réis quando ele trabalhava na construção da estrada de ferro Vitória X Minas Gerais.
O valor teria sido pago à irmã de João da Santa, e o índio seguiu para a casa do casal Gernina e Jovino Garcia Duarte, pais de Durval e avós maternos de Durão. “João da Santa chegou muito doente, comeu demais na hora do jantar e quase morreu”, conta Luiz.
A partir daí, João da Santa ficou morando com os avós de Luiz Durão, depois com os pais e por fim com o próprio. “Ele morava na minha casa, mas, como estava com a idade avançada, atravessava as ruas sem olhar e corria o risco de ser atropelado”, explica.
Então, Durão decidiu levá-lo para a Fazenda São José, situada na região do Degredo - Pontal do Ipiranga, e pediu para uma funcionária, dona Rita, tomar conta dele. “João da Santa se sentia o dono da fazenda, mas começou a ter problemas sérios de coração e, como a estrada era ruim, temi que ele passasse mal e chegasse ao hospital sem vida”, recorda Luiz.
Por essa razão, dona Rita e João da Santa mudaram para uma casa no bairro Interlagos, até o dia no qual, mesmo levado rapidamente ao hospital, faleceu, sendo sepultado no jazigo da família Durão.
Certa vez, uma senhora com muita dor de cabeça pediu para João da Santa benzê-la. Assim que acabou o benzimento, a senhora disse que a dor havia passado. Para muitos, as coisas aconteciam em razão da fé que ele tinha.
Outro caso curioso aconteceu com o próprio João da Santa, após o surgimento de tumores em seu corpo. Como em Linhares quase não havia médicos, ele foi levado até Samuel Batista Cruz, na época um conhecido dono de farmácia – e, tempos depois, um dos principais políticos do município.
Quando Samuel encostava a mão em João da Santa, este pulava de dor. Aí João pegou a santinha e a abraçou. Samuel então fez tudo que precisava ser feito: cortou o tumor, espremeu, limpou e colocou remédio, sem João da Santa dar um gemido ou reclamar.
A idade de João da Santa é um mistério. Luiz Durão providenciou uma certidão de nascimento para ele, para que fosse usada quando necessário, mas confessa que não tem ideia de quantos anos ele viveu. “Garanto que foram muitos”, diz.
A santinha que João da Santa carregava foi doada para a Serlihges – Seccional Regional de Linhares do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. E em 9 de junho de 2012 foi inaugurada no Centro da cidade a Ladeira João da Santa, que vai do Mirante, situado na Praça 22 de Agosto, ao Cais do Porto, no Rio Doce.
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João da Santa era devoto de Nossa Senhora Aparecida e carregava sempre uma santinha